01/08/2009

Mary Jane


Dor.

O sangue chama na partilha da dor atroz que despedaça.

A irmandade é tanto maior quanto a dor partilhada e os abraços dados? É ela tanto maior quanto os meses não falados, os insultos mal trocados, as ofensas mal escondidas?

O sangue chama na partilha! E tudo o mais é diferente : não é carne da mesma carne, não existe desde sempre, não é chama que chame assim, quer esta alumie quer a mesma queime.

Da dor atroz que despedaça! E tudo o mais é diferente : não é tão facada, aperto sufocado, pedaço despedaçado, nada!

Dor.
E com ela, a esperança que não morre, pois morrer não pode quem partilha do mesmo sangue e dor, carne e esperança!

31/07/2009

Para a Lú!

Porque o que une as pessoas é a partilha e a comunhão alegre e desprendida dos dias, aqui fica o registo simples de uma pegada, ainda que não de um pé qualquer!



Estas marcas vincadas nas areias da terra que confina com o mar são do pé da Luísa. Pertencente ao resto, este pé recuou após ter calcado a superfície húmida e moldável . Foi então que os demais parceiros (braço, mão e indicador, cabeça, olhos e pensamento) ordenaram que a máquina emprestada do mano sobre a mesma se centrasse e que nesse instante clicasse, para registo concreto.

Lembro-me que nos rimos então.

À nossa amiga muito querida Lú, as saudades carinhosas das suas companheiras do Rio!***


30/07/2009

"Girl reading on the beach" - Picasso

Como sabias, mestre Picasso, que assim passaria o meu dia?
Como adivinhaste, mestre Pica, as minhas formas por nascer?
Como entraste, mestre Pi, em mim, de forma a me pintares em tela?
Como fizeste, mestre P, para nunca morreres?
Como viveste, mest, com a mulher que eternizaste?
Como pudeste, me, vender este teu filho?
Porque me tiraste, m, a sombra que paguei?
***

27/07/2009

Notícias da caserna*

Já xtou a ficar bronzeada!




Fumar melão? O nú e o fumador, de Pablo Picasso

Fumar melão?
Todos contentes, a fumar melão, enquanto castanholas do lado de cá da distância batiam incessantes, como fábricas produtoras de fumo concentrado??

Magnifaminh'alma, ah pois, que magnifa ficou!


Foi então que encontrei o instrumento de água... que o achei gracioso e belo... foi então


que descobri o nú e o fumador de Picasso!

O fumador (todo cor e enfeites, botas cardadas e capa com apetrechos) chama a atenção. Claro, pois se é ele que fuma e se eleva com o gosto do fumo ameloado!




Lindo, o quadro que se lê!
E de novo, a minha magnif'alma assentou nas imagens saudosas e faltosas dos meus amigos, a fumarem melão! Hehee!
Que bem me soube tê-los visto alegres e matreiros, como putos rejubilantes na descoberta de uma brinquedo novo!
Saudades, amigos queridos... E CUIDADE CUS PULMÕIS!!!
***

25/07/2009

Como Celestina!


Celestina, pintada por Picasso, vê com o olho vesgo, que adivinha.
Com o vesgo adivinha o que à vista não está: primeiro pressente, depois percepciona , pressupõe, percebe.
Com o outro, nada mais vê Celestina senão o que à vista está.
Assim, nas voltas da vida, é abençoada com olho baço a mulher que do outro é cego.
Assim, nas voltas da vida, é abençoada esta que também sou eu, que não vê o que é evidente, mas que cuja vista baça não perde de vista os que lhe estão no coração!
Aos meus, ao dos dias cada vez menores ***!

14/07/2009

Vela, Osíris!


Ao Príncipe dos Gatos, o abraço reconhecido da bípede do Rio!

Porque não podia "No comment" ser!


“Vulgo – Pau Rosa”, traz palavras novas que passei a conhecer. O crepitar dos torresmos surpreendem, bem como o ébano das mãos da senhora que li “gorda”, mas que imagino goooorda, gooorda.


A pergunta é desnecessária, sendo o próprio Eu que responde: o “bem sabendo que não” é a afirmação do falso diálogo, no monólogo da verdade.


Ao Sonjo, um Mix***

07/06/2009

Os do lado de dentro


Figuras fantásticas que curiosamente me sugerem a ideia de perfeito equilíbrio.
Pintar ou exteriorizar o que vai por dentro de cada um é muito mais verdadeiro e real do que tirar medidas na reprodução lírica ou pictórica sem alma do que existe.
O Anjo, à esquerda, vence o diabrete-irmão.
As asinhas esfarrapadas tocam-me ... e as costelas, pinças cerradas de saladeira, dão-lhe o porte.
Feios ambos, de um belo-horrível, encontro nos esfarrados a harmonia e a vitória do Bem!
Estranho, pois é?
Pois é ... estranho é.

03/06/2009

No mundo das Letras, ter um cantinho!


Ser o meu castelo uma pilha de livros para ler , uma torre de folhas não encadernadas feita de mais que mil mãos cheias de palavras por dentro que não se ouvem cá fora ...

Ter os meus diabinhos à solta completamente distraídos de escusadas diabrices ...

Ter o direito à fruição dos dias e o dever de afastar a dor!

Ver os rebentos meus ficarem rosas e depois roseiras!

Descansar, por fim.

***

16/02/2009

CONVITE ***


O lindo, lindo quadro de Chagall comove-me.
Para além da expressão metafísica deste amor entre o homem que bóia como leve pena para a face desta mulher de flores na mão, para além da compulsão que se sente na vontade de também ir, impressiona a concreta e objectiva realidade do espaço envolvente!
Desde o pequeno banco preto, à esquina que se espreita da rua, desde a bancada da cozinha, aos pés da cama (não "A" cama, mas tão somente os seus pés) e ainda a pequena parede de mármore ao fundo, ao fundo, mas à frente de uma janela que tapa a outra que por trás existe.
E depois a bolsa, o relógio (será espelho?), o padrão da colcha e da tapeçaria , e os telhados e Ela, graciosa em cima dos seus sapatinhos de taco alto, de renda branca a encimar-lhe o vestido, de flores (ai o cheiro, ai a mistura delas, ai a graça do molho nos olhos meus) presas pela mão solitária do único braço que tem...

Tudo neste quadro me prende e fascina, como (parafraseando) Lux!
Porque a vida é difícil mas tão bela,
porque as bicas sabem sempre tanto a flores,
porque apesar da tosse,
da rouquidão,
do cansaço,
da solidão,
da exaustão,
da injustiça e da podridão
e porque apesar disto tudo e muito mais
existe este quadro ,
convido-o , exaurido amigo meu dos dias, a sentar-se a meu lado e, sem ter que muito ou nada dizer, pura e simplesmente se delicie com os sentidos e admire a vida através de Chagall, meio difuso por entre o fumo dos cigarros que fumaremos, enquanto bebemos um café quente na esplanada vazia.

13/01/2009

"Chamada não atendida"


Nos cereais, a forma do homem que é campo!
No campo, o homem que é sombra nos cereais!
Na sombra, a pegada do homem do campo que não tem pés!
No que não tem pés, as saudades do rio!
No rio, a insónia e a estranheza do tempo que se dilatou repentinamente, presença de ausências plácidas que acompanham e despoletam vontades, pensamentos e momentos que, como sombras ou pegadas, deixam marcas visíveis (não mais, não menos) nos cereais dos meus campos, nas águas do meu Judeu, nas graças das do meu ventre, na chamada que não ouvi do meu dos dias!
***

Sobrancelhas e bochechas, olhos e nariz!


Dos emaranhados traços musculados, amachucados e cinzentos, a graça do jovem.

O enrugado nariz está como que assente nos rasgos olhos que não vêem mas tudo viram, já que se trata não de um retrato, mas de auto-retrato!

Auto-retratou-se este jovem talentoso que aqui está (mas não está, mas não está), sendo que no seu auto me encontro de tantas e tão variadas dispersas formas:

- ali estou no toque que conheço bem, ali nos olhos que fechados me vêem, nas mãos que não são minhas, na boca apertada que é rosa, nas asas das sobrancelhas que voam e que , portanto, dali partem.

Jovem talentoso amachucado a cinza, aperta-me as bochechas, faz-me voar as sobrancelhas e volta a fazer-me rir!

***

23/12/2008

O Natal de Espiral!


Aos meus Amigos, que são luz e calor no meu ser, o meu agradecimento quentinho e luminoso: dos pés calçados de sonho, via coração aconchegado de lembranças e vontades, até à ponta dos dedos que aqui dedilham o breve texto que não diz aquilo que quereria dizer, a todos vós, um Bem-Haja, meus queridos!
Babú Vous!***

12/12/2008

O Meu Companheiro tem mancha branca no peito destemido!


O vento quase parou: divertido, acompanhou com olhar risonho e mansamente afagou os cabelos despenteados do cavalinho (corcel gracioso) que trota a mando do cocheiro de chicote de plástico.

Ao lado, o passageiro espera para subir na preciosa carruagem, enquanto outro cavalinho (de mancha na pelagem do seu peito jovem) se prepara para constituir parelha, que é como quem diz, para com ele ser mais um.

No conjunto dos elementos que constituem a rua deserta, a riqueza e opulência destas personagens dão-lhe o porte real que fascina pela entrega, pela alegria e pelo realismo que só as crianças conseguem dar ao que não está lá!

Mas está!

Por isso mesmo, a imagem é muito maior do que realmente aparenta: ela tem a altura e o tamanho da visão que encerra, num parêntesis casual na vida de pequenos putos, de altura pouca, garbosos e felizes, uns por usarem as suas valentes quatro patas, os outros pelos trajes de veludo que exibem, nesta partida para uma viagem inimitável, ímpar e comovente.
(saber que já um outro Eu esteve aqui é, de algum modo, perceber que, no presente, promessas que a vida dá estão ainda por se cumprir : então, qual garboso corcel, trotarei nas avenidas desconhecidas, beijarei o vento matreiro e partirei feliz!)


Ao Sonjo!

10/12/2008

Comment


Mil ferroadas espetam a cabeça do que sofre. Sofre, porque deixa que mil pregos e parafusos se atarraxem em si.

O esgar enrugado, o aperto das mãos de desespero, o olho vermelho que perdeu o azul, o olho azul que perdeu o tom do castanho outonal… a boquinha de caracolinho, assim igualzinha à dos caracóis, que não grita.

Gemido e dor interior.
Tormento silenciado.
Dor infligida… bonita e triste composição!

02/12/2008

"Uma garfada de Sol, a dar papa à Lua"


No equilíbrio entre o Sol e a Lua, a mesma simétrica distribuição entre a vida e a morte, a noite e o dia, o estar bem e o estar mal.
No trompe d'oeil que é tecto plano, a visão da garfada de Sol é alimento da Lua (assim é).

=O)*+*+*

25/11/2008

Un air de pluie!


Un air de pluie, mussiô!!

15/11/2008

ADORNO ABORÍGENE (detalhe)


Nos trajectos variados feitos de contas, uns há que serpenteiam contrariando fluxos rectilíneos, outros permanecem, firmes e constantes, vincando no fundo negro do nada, razões para a sua existência e ser.
Feitas de pequenas contas que são pontos, que são pérolas, que são glóbulos brancos , as veias-estradas marcam territórios e divisórias, secções particulares que enfeitam a base e entretêm a vista: lembram fases do EU , algumas irreconhecíveis, alimentando esse mistério que é o devir, que é o sermos todos nós tão diferentes do que já fomos e ainda assim, sermos nós mesmos, numa permanência não explicável nem entendível aos olhos da auto-análise e retrato.
Renda ornamental: a vida é toda feita de muitas curvas e direccções, de reviravoltas inesperadas, de pausas e encantos, paragens paralisantes, de recomeços!
Aqui me revejo, quando PARCAMENTE me lembro do que fui, quando LENTAMENTE tento perceber o que sou e quando MAL antevejo o que serei.
Bb. ***

12/11/2008

* 1a2


Fala-se de um caso antigo.
Em 1976, todas as mulheres e jovens
eram seguras de uma transversal certeza:

a de que não poderiam fugir ao fenómeno da plastificação.
Enclausuradas, as mulheres mudas, gritavam gritos abafados,
que ninguém ouvia, a não ser os homens surdos.
Os sobejantes, viris, másculos e ouvintes, tornaram-se os efectivos surdos!
Sem ter como perceber o que os gritos lhe diziam, banqueteavam-se em
lUxUosos hotéis à custa de dinheiros de estados desviados
de movimentos feministas anti-plastificação.

A Tupperware, organização mundial, infiltrava-se nos lares
com outro objectivo bem maior que o de
vender caixas com tampas multicolores – mas sim,
a castração das cordas vocais venusianas.

Graças a Esther Williams , o grito fez-se ouvir!

Vomitada do seu interior pela superfície uniforme e sufocante,
optando por acondicionar os restos da última refeição
em folha de alumínio, embrulhou-se totalmente e fez-se levar para casa (outra).
babá et sonjo